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quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Resenha: As Vinhas da Ira, John Steinbeck



Sinopse: As Vinhas da Ira é um romance sobre a dignidade humana em condições desesperadas. Entre 1930 e 1939, as grandes planícies do Texas e do Oklahoma foram assoladas por centenas de tempestades de poeira que causaram um desastre ecológico sem precedentes, agravaram os efeitos da Grande Depressão, deixaram cerca de meio milhão de americanos sem casa, e provocaram o êxodo de muitos deles para Oeste, nomeadamente para a Califórnia, em busca de trabalho. Quando os Joad perdem a quinta de que eram rendeiros no Oklahoma, juntam-se a milhares de outros que ao longo das estradas se dirigem para Oeste, no sonho de conseguirem uma terra que possam considerar sua. E noite após noite, eles e os seus companheiros de desdita reinventam toda uma sociedade: escolhem-se líderes, redefinem-se códigos implícitos de generosidade, irrompem acessos de violência, de desejo brutal, de raiva assassina. Este romance que é universalmente considerado a obra-prima de John Steinbeck é o retrato épico do desapiedado conflito entre os poderosos e aqueles que nada têm, do modo como um homem pode reagir à injustiça, e também da força tranquila e estóica de uma mulher. As Vinhas da Ira é um marco da literatura norte-americana. (Fonte: Skoob)

"As Vinhas da Ira" era um livro que eu tinha muita vontade de ler, principalmente por ter ficado tão comovida com a leitura de "A Pérola", também do John Steinbeck, na época da faculdade. Comprei uma edição de bolso com um preço fazível na última Bienal do Livro de São Paulo e achei que era um bom jeito de começar a minha lista de leituras "100 Livros Essenciais da Literatura Mundial", da revista Bravo.

E, por Deus, não houve jeito melhor de abrir os trabalhos!

Mas falar de "As Vinhas da Ira" é tão difícil, são tantos sentimentos provocados e dolorosamente sentidos durante a sua leitura!

Steinbeck nos apresenta a família Joad aos poucos e aos poucos vamos nos deixando cativar por seus membros e dramas pessoais, pessoas simples unidas por um único objetivo: fugir de Oklahoma, onde já não há mais trabalho para os camponeses, e chegar à Califórnia, tendo a esperança de viver uma vida decente através do trabalho. A Depressão de 29 atingiu não só as pessoas nas cidades, mas também os trabalhadores no campo, que se viram desprovidos da terra – quase uma extensão sua – e também da sua dignidade.

O clima, um antagonista cruel, aliado ao "progresso" trazido pelas máquinas que tomaram o emprego de tantos homens e mulheres, é uma presença constante. Seja no calor e tempo seco inclementes, seja nos temporais quase bíblicos que fustigam os Joad. Nada parece contribuir para aliviar as agruras de um povo já tão maltratado.

Mas se há esse desalento trazido pelas adversidades, também há humanidade e solidariedade. Pessoas que se unem para que haja conforto e um pouco de decência, para que a vida seja um pouco mais que apenas sobrevivência. E durante toda a leitura há paralelos entre fartura e escassez, esperança e desespero, pecado e redenção. A narrativa de Steinbeck tem tantas passagens belas, de uma poesia crua e realista, mas comovente ao extremo.

"E à noite acontecia uma coisa estranha: as vinte famílias tornavam-se uma só família, os filhos de uma eram filhos de todas. A perda de um lar tornava-se uma perda coletiva, e o sonho dourado do Oeste, um sonho coletivo."

Inevitavelmente, não pude deixar de me lembrar de "Vidas Secas". Se Graciliano Ramos mostra a desumanização de seus personagens ao fugirem da seca, Steinbeck nos mostra a luta feroz desses personagens em manterem a sua humanidade. Nisso, preciso destacar o quanto a presença da Mãe Joad é fundamental para tal. A personagem que não tem nome, mas que assume em si com toda a propriedade o título de Mãe. Com letra maiúscula sim, sem a menor dúvida. É ela que tenta manter a família unida, pois sabe que só através dessa união eles podem sobreviver; é ela que ainda tenta manter uma rotina de normalidade, mesmo quando tudo parece desmoronar ao seu redor; é ela que busca dar conforto aos seus, que sustenta e dá força a todos.

"Para a mulher, tudo corre sem parar, que nem um rio, cheio de redemoinhos e cascatas, mas correndo sem parar. É assim que a mulher encara a vida. A gente não morre, a gente continua... muda, talvez, um pouco, mas continua sempre firme."

No mais, é um livro que recomendo muito. Pela sua estória e história, pela delicadeza e sensibilidade em tantos momentos, pela crueza e sinceridade em tantos outros, e por tantos personagens admiráveis. Steinbeck já se tornou um dos meus autores favoritos e foi com certa tristeza que terminei de ler a saga dos Joad.

Este livro faz parte da lista da revista Bravo com os "100 Livros Essenciais da Literatura Mundial". É só clicar na imagem abaixo para saber mais:


quarta-feira, 9 de julho de 2014

Resenha: O Chamado do Cuco, Robert Galbraith


Sinopse: Quando uma modelo problemática cai para a morte de uma varanda coberta de neve, presume-se que ela tenha cometido suicídio. No entanto, seu irmão tem suas dúvidas e decide chamar o detetive particular Cormoran Strike para investigar o caso.

Strike é um veterano de guerra, ferido física e psicologicamente, e sua vida está em desordem. O caso lhe garante uma sobrevida financeira, mas tem um custo pessoal: quanto mais ele mergulha no mundo complexo da jovem modelo, mais sombrias ficam as coisas e mais perto do perigo ele chega.

Um emocionante mistério mergulhado na atmosfera de Londres, das abafadas ruas de Mayfair e bares clandestinos do East End para a agitação do Soho. O chamado do Cuco é um livro maravilhoso. Apresentando Cormoran Strike, este é um romance policial clássico na tradição de P.D. James e Ruth Rendell, e marca o início de uma série única de mistérios. (Fonte: Skoob)


Adoro romance policial. Gosto da atmosfera, o construir de possibilidades e seguir as pistas junto com o próprio detetive da história. Sou apaixonada mesmo, embora não tenha lido tanto quanto gostaria. Quando soube que a Rowling, sob o pseudônimo de Robert Galbraith, escreveu um romance policial, tive lá os meus receios - ainda é difícil não associá-la ao universo potteriano, principalmente por ter recebido críticas divididas em relação ao seu primeiro romance "adulto", Morte Súbita. 

Mas fui seduzida pela narrativa de O Chamado do Cuco logo nas primeiras páginas. 

O enredo não tem nada de mirabolante: a modelo Lula Landry cai da sua sacada e o irmão adotivo dela não acredita ser um suicídio, mas que alguém a assassinou. Contra as certezas de todos próximos a Lula, John, o irmão adotivo, contrata os serviços de Cormoran Strike, um veterano de guerra com um passado (e presente) conturbado, que acaba encontrando na secretária temporária Robin a sua contraparte, que consegue enxergar coisas que ele não vê e improvisar maravilhosamente bem.

E foi aí que me apaixonei de vez pelo livro, porque a construção de todos os personagens é fantástica. Cormoran tem uma complexidade única e, como todo bom detetive, tem um código de ética que lhe é muito próprio. O seu modo sistemático de investigação é interessante, pois muitas vezes ele deixa as coisas fluírem de certo modo que as informações acabam lhe sendo entregues. Já Robin tem todo um maravilhamento pelo trabalho do detetive, mas agindo quase como o anjo da guarda dele na maior parte do tempo. Simplesmente adorei os dois.

Conforme embarcamos no universo de Lula, descobrimos mais sobre o seu passado e o seu relacionamento complicado com as pessoas que a cercavam. Há uma atmosfera sufocante por conta da constante perseguição dos paparazzi, a preocupação com a imagem a ser transmitida e com o status a ser mantido, de um jeito ou de outro, por cada um dos personagens. E Londres é o cenário perfeito para essa história, com seu clima cinzento e pesado.

Como disse, o enredo em si é até bem simples. Contudo, a graça toda é desconfiar de tudo e de todos, tentar enxergar pistas e detalhes em cada cena, cada diálogo, e interpretar as intenções de cada figura que vai sendo apresentada. Formulei um sem número de teorias durante a leitura, mas que se provaram completamente erradas quando o mistério todo é solucionado. E que fez o meu queixo cair, porque me surpreendeu um bocado.

Fiquei agradavelmente surpresa com este primeiro livro de Robert Galbraith (vulgo J.K. Rowling). Sei que outros virão e com certeza vou acompanhar mais a dupla Cormoran e Robin.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Resenha: Queda de Gigantes, Ken Follett



Sinopse: Queda de gigantes é o novo épico de Ken Follett. O primeiro romance desta trilogia segue o destino de cinco famílias durante a Primeira Guerra Mundial e a Revolução Russa. Aos 13 anos de idade, Billy Williams entra em um mundo de homens nos poços de mineração da Gália. Gus Dewar, um estudante de direito norte-americano sem sorte no amor, encontra uma carreira nova e surpreendente. Dois irmãos órfãos russos, Grigori e Lev Peshkov, embarcam em caminhos radicalmente diferentes separados por metade do mundo quando seus planos de emigrar para os Estados Unidos falham por causa da guerra e da revolução. Estes e muitos outros personagens têm suas vidas intimamente entrelaçadas em uma saga que se desdobra em drama intrigante e complexo. Queda de gigantes vai de Washington à São Petersburgo, da sujeira e do perigo de uma mina de carvão aos candelabros brilhantes de um palácio, dos corredores do poder para os quartos dos poderosos. Como sempre acontece com Ken Follett, o contexto histórico pesquisado é brilhante e a ação processada em movimentos rápidos. Os personagens são ricos em nuances e emoção. Está nascendo um novo clássico. (Fonte: Skoob)


Resumindo: estou apaixonada pelo livro. 

Sem mais. 

Acabou a resenha, podem ir embora.

Brincadeiras a parte, é difícil falar de um livro que te deixa tão empolgada, em que mal se sabe por onde começar a elogiar. Ken Follett conseguiu me ganhar no primeiro capítulo de seu livro, fazendo com que eu me apegasse imediatamente aos seus personagens.

O autor tem uma das características que mais prezo em um escritor: a capacidade de fazer com que personagens te provoquem alguma reação. Nem que seja odiá-los por suas atitudes na narrativa. E ele consegue isso com competência e maestria. Fui imediatamente cativada pelos irmãos Williams, (Billy e Ethel), por Walter, Grigori e tantos outros, assim como também senti raiva de Fitz e uma certa impaciência indulgente em relação a Lev. Personagens com nuances e bem construídos fazem qualquer narrativa me ser interessante.

Mas, além de personagens ótimos e marcantes, Follett também escolheu um tema poderoso de se trabalhar, ainda tão confuso de se explicar por historiadores: A 1ª Guerra Mundial. Além de tratar da 1ª Guerra Mundial, o livro também retrata a luta das feministas inglesas pelo direito de voto, operários em busca de melhores condições de trabalho e a Revolução Russa de 1917, sempre mesclando fatos históricos e ficcionais. 

O autor conseguiu abordar a história através de personagens tão diferentes, de países diferentes, de classes opostas não só por sua posição social, mas pelo pensamento ideológico, em que não existem heróis e vilões absolutos. E sem ser parcial.

Sabemos que a história sempre é escrita pelo lado vencedor. Mas o autor conseguiu mostrar que existem pessoas boas e ruins em todos os lados - prova disso são os personagens Walter e Grigori que são, respectivamente, um alemão e um russo lutando por suas nações, mas que sabem que o sistema é falho e que nem sempre os meios justificam os fins.

Agora já estou mais que ansiosa pelo próximo livro da Trilogia "O Inverno do Mundo", que tratará da Depressão de 1929 e da 2ª Guerra Mundial. E o último livro retratará a Guerra Fria.


Uma prévia de Queda de Gigantes pode ser encontrada no site da Editora Arqueiro.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Resenha: Territórios Invisíveis, Nikelen Witter



Sinopse: Nem sempre os acontecimentos extraordinários se manifestarão para pessoas especiais. Por vezes, o que alguns chamam de Destino nada mais é do que uma coleção de acasos, selecionados pela sorte. Ou, pela falta dela.

A vida dos gêmeos Ariadne e Hector nada tinha de excepcional. A não ser, talvez, pelo desaparecimento da mãe, a historiadora Marina, há quatro anos. Porém, para quem vive nas grandes cidades (por vezes, até mesmo nas pequenas), este é um pesadelo que se pode encontrar em qualquer jornal. Assim, às vésperas de completarem 13 anos, os dois irmãos dividem seu tempo entre fugir da dor da perda, implicar um com o outro, atormentar o pai e conviver com os três melhores amigos: Neco, Leo e Camila.

Acontecimentos incomuns os rondam, se fazem próximos, embora ainda não perceptíveis. Então, quando o irmão mais novo de Leo é raptado, o extraordinário os arrebata. Os sequestradores do pequeno Mateus exigem a entrega de uma misteriosa caixa de segredos, não maior do que um tijolo, entalhada com um sol com raios que vertem lágrimas – um sol que chora. A caixa foi construída de maneira a permanecer inacessível até que as peças que a formam, organizadas em quebra-cabeças, tenham seus segredos desvendados.

Aventure-se com esses amigos por um navio pirata, terras misteriosas, seres extraordinários, cavernas de tesouros e muito mais! (Fonte: Editora Estronho)

 

Dos livros lançados em 2012, Territórios Invisíveis foi um dos mais aguardados por mim. Já conheço a narrativa da autora há anos, da época em que eu era leitora (e autora) voraz de fanfictions, e cheguei a ler alguns de seus textos originais. Conhecendo a qualidade de seu texto, só podia ser uma expectativa boa.

E o livro já me ganhou logo no primeiro capítulo, diante do modo envolvente como as descrições são feitas e os mistérios se insinuando e prendendo a curiosidade logo ali, no comecinho, causando curiosidade.

Sou obcecada por começos de estórias, mais ainda do que com a conclusão em si. Porque é a expectativa toda ali no começo que precisa me ganhar e me seduzir, e já larguei não sei quantos livros por causa de um começo desestimulante. E “TI” (assim carinhosamente chamado pelos seus fãs) tem um começo perfeito no que diz respeito ao modo como a estória te convida.

Quando somos apresentados, no capítulo seguinte, aos protagonistas, os irmãos gêmeos Hector e Ariadne, o que marca não é, a princípio, a personalidade distinta e marcante de cada um deles. O que me encantou foi ver o modo realista como dois pré-adolescentes são retratados diante do trauma que foi o sumiço da mãe, cada um lidando do seu próprio modo com esta ausência. É cansativo ler literatura infanto-juvenil que, mesmo se for para as bandas da Fantasia, esquece-se de manter certo pé-no-chão nas caracterizações. Não é o caso aqui e o que adorei tanto foi notar que não houve um descaso e infantilização desnecessária de um tema sério (o sumiço de um familiar) e do modo como criamos mecanismos para lidar com a perda – principalmente a caracterização da personagem Ariadne. Ponto positivo.

Aos poucos vamos sendo envolvidos na trama dos misteriosos assassinatos, do sumiço de Mateus, irmão de Leo (amigo de Hector), e das coisas estranhas que parecem ligadas à pesquisa da mãe historiadora dos gêmeos que desaparecera durante esta pesquisa, enquanto também somos apresentados aos pouquinhos a cada novo personagem.

A trama toda é surpreendente, pois não fazia a mínima ideia do seu desenvolvimento e o que seriam os tais “Territórios Invisíveis”. Mais de uma vez me peguei surpreendida por uma ou outra referência (uma relacionada à Ariadne e outra que me lembrou muito Harry Potter, mas não conto o que é! Rs) e por conta de toda a dimensão do universo criado.

Fantástico em todos os sentidos.

Se a resenha parece vaga, é justamente para não entregar spoilers. A graça toda é embarcar na estória e tentar descobrir, junto aos personagens, todo o suspense vivenciado e como tudo pode estar relacionado aos gêmeos.

É um livro bem escrito e bem pensado, com um gancho no final que já me deixou na expectativa para uma continuação – que já sei que vem!

Se tenho alguma ressalva é em relação à revisão, já que encontrei uma coisinha ou outra fora do lugar. Nada que comprometa a leitura ou a compreensão do texto (longe disso!), mas, revisora que sou, não consigo ignorar quando encontro.

No mais, é uma leitura extremamente recomendada. Não subestima o leitor e tampouco os jovens personagens e ainda conta com um enredo bem legal. Sem contar o trabalho gráfico, que é maravilhoso!