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sexta-feira, 18 de agosto de 2017

mosaico

quando fui despedaçada, ainda não era dona de mim
era toda sentidos e sentimentos
confiando em palavras e promessas que não eram

em algum lugar ficou perdido um caco
talvez o átomo elementar e definidor
o big bang prestes a eclodir e expandir o universo

a partícula divina

e foram anos e décadas e infinitas vidas não vividas
e foram angústias e dores e o não sentir incompleto

e não penso no que ficou como sendo o que restou
mas como o que sobreviveu
e dos cacos eu vou criar arte e me refazer
bela como um vitral dando passagem à luz












sábado, 16 de agosto de 2014

Inconsequência



I - Ele soube que seria assim, logo no princípio.

Uma loucura.

Porque era insano pensar que logo no primeiro olhar as coisas mudariam tão repentina e drasticamente em sua vida.

Diziam que era o tal Amor, que finalmente o fisgara com suas garras inexpugnáveis, mas ele julgava ser apenas uma ilusão, algo que não duraria mais que uma estação. Volúvel - foi o que ele considerou ser.

Poderia dizer que fora o jeito espontâneo que o cativara, ou o sorriso carismático, como quem carrega em si toda a vida e liberdade do mundo. Não sabia dizer, pois também havia os olhos, fossem as íris azuis ou negras ou cor de mel. Não, os olhares é que eram luminosos. Doces e apimentados, algo de sensual e descontraído, como quem não tem a intenção de seduzir.

Era obsessão.

Tal qual um mortal dedica à dona de seus amores.


II - Ele soube que seria assim, logo no princípio.

Inevitável.

A eterna e ancestral atração. Tão poderosa quanto o mais primitivo desejo, algo que ia além do seu poder de resistência tão logo provara do seu beijo pela primeira vez.

E ele descobriu que estava perdido.

Oh, tão completa e deliciosamente perdido...

E sabia ser o responsável por aquilo porque ele era o malvado lobo que, com sua voz rouca e macia, a conquistou, a seduziu, a arrebatou. Fora ele que, como o lobo que compartilhava de sua alma solitária, a vigiou com seu olhar penetrante, pois não sabia como resistir àquela fascinação.

Estava se entregando.

Porque há coisas que nascem para ser assim. Por toda a vida. Até a morte. Porque amar é morrer um pouco por dia e somente renascer em virtude da reciprocidade desse amor. Era, sim, uma loucura, mas existe algo que seja assim, absolutamente racional?

Irracional, era assim que ele se sentia. Tão perigoso quanto o lobo que espreitava por detrás de seus olhos ambarinos.

Desesperado.

Que fosse!

Novamente, era aquele instinto tão forte e arraigado e passional turvando-lhe a racionalidade. Ele a desejava. Mais que tudo. E, oh céus... era retribuído neste sentimento, nos sorrisos, nos olhares... e ele, que se achava o caçador, quedou-se mudo em espanto e entrega: fora subjugado pela intrépida ninfa de olhos brilhantes e sorrisos matreiros e risada fácil.


III - Ele soube que seria assim, logo no princípio.

Delírio.

No quarto decrépito, apenas a luz incerta de uma chama iluminava o aposento. Luz suficiente para ele ter a plena visão do que se negara a admitir ser o objeto de seu amor.

Os dedos, incertos a princípio, percorriam cada detalhe do corpo amado e arrancavam gemidos e suspiros e promessas: ela era sua, sempre o seria, até a morte.

E ele morria mais um pouquinho por dentro e se entregava com o mesmo furor que um guerreiro ante a sua última batalha.

Os lábios deslizavam pela pele macia e perfumada, cheiro de frutas doces, degustando aquela especiaria.

Como se fosse a primeira e última vez. Porque seria sempre assim, com a impetuosidade de uma tempestade de verão. Breve e refrescante, carregando em si o poder da transformação.

Inconsequência - era o que uma voz insistente teimava em lhe dizer, bem lá no recanto mais obscuro de sua mente.

Sim, ele o sabia, tinha consciência que a sua paixão condenaria a ambos tão implacavelmente quanto uma maldição de morte.

Era letal.

Porque quanto mais ele a amava, mais ele morria por dentro e necessitava do amor dela para renascer outra vez.


IV - Ele soube que seria assim, logo no princípio.

Verdadeiro.

Tão breve e intenso e impetuoso quanto uma tempestade de verão. Com seus aromas de doces frutas e suas constantes oscilações e sua desesperada vontade de ser feliz.

Era fatal.

E, no momento derradeiro, veio a certeza de que a sua inconsequência condenara a ambos. Por toda a eternidade.

Porque ela prometera ser sua até a morte e para além dela.

E foi assim que aconteceu.



(Estou me apropriando descaradamente das coisas da Morgana. Eu sei, é feio, mas ainda gosto muito deste texto, que recebeu uma pequena reformulação do original. Ideias estão começando a vir. Ainda tímidas, ainda vagas, mas estão vindo. Vem, Morgana, vem!)

domingo, 4 de maio de 2014

(Ins)(Ex)piração


A primeira vez em que ouvi falar da expressão "hiato criativo", fiquei toda confusa, querendo entender o que diabos um encontro vocálico tinha a ver com a malfadada falta de inspiração. Só depois de um tempo fui saber o seu significado, mas compreender em sua totalidade foi outra história.

Ou não.

Porque, no caso, foi justamente a falta de história o que ocasionou o meu primeiro "bloqueio". Ah, palavras conhecidas e estranhas para traduzirem o que aquela sensação de vazio e estufamento e excesso de ideias e falta de meios e maneiras...

Ok, estou sendo confusa e prolixa.

Sabem aquela sensação de fome, quando o seu estômago acaba doendo tanto que o apetite desaparece? Ou então quando você chega em casa muito cansado, depois de ter enfrentado um dia atribulado no trabalho, mais horas intermináveis estudando coisas que você sabe que vai esquecer assim que fizer a famigerada prova final, e ainda ter suportado mais algum tempo no ônibus lotado, mas ainda assim, quando chega o bendito momento de descanso, você simplesmente não consegue dormir por estar exausto demais?

Como dois pólos positivos que se repelem, duas vontades igualmente latentes que deixam a nossa pobre mente totalmente atribulada.

Pensei em escrever sobre a falta de sensibilidade humana, ou sobre crianças, flores e brincadeiras de roda. Tracei roteiros para viagens fantásticas a universos além do infinito, procurando rotas que me levassem para as mais inimagináveis fantasias. Sonhei com diálogos profundos e complexos, quando pessoas distintas e complementares acabam por encontrarem a chave para o extraordinário. Também pensei em escrever sobre amores irreais, quando amantes prometidos descobrem que o destino não era tão inexorável assim e que paixões são eternas até o momento em que a rotina mostra que outras coisas importam mais em um relacionamento.

Ideias, planos, roteiros - os mais mirabolantes e fantasiosos, sem dúvidas - levaram-me a madrugadas insones e devaneios avassaladores e dores de cabeça (como seriam as dores de parto?); e eu mal partia de um ponto, porque ao me deparar com meus livros favoritos, eu sabia da minha mediocridade e insignificância perante os contos que têm embalado a minha existência.

Procurei a inspiração em filmes, livros, músicas. Tentei encontrar no rosto de desconhecidos algo que trouxesse aquele momento sublime de inspiração - porque é, de fato, como se um sopro divino levasse para longe o ar vicioso da minha condição ordinária - mas tudo em vão, as palavras simplesmente escapuliam do meu alcance.

Então quedei-me pensando na real essência da inspiração: de onde vem, para onde vai, por que alguns escolhidos são agraciados com o seu toque. Sentia-me quase como Prometeu, que roubara o fogo sagrado dos deuses e o trouxera para o mundo, quando tentava enveredar pelos caminhos sinuosos da palavra, e tentava e tentava e falhava em vários momentos.

E de tanto pensar e ponderar, das várias coisas que li e estudei (tão pouco, tão superficial!), do tanto que tenho peregrinado em busca da genialidade dos meus mestres, acabei sem encontrar uma solução que fosse. E, no final, o que tenho por companhia não é a esperada inspiração, mas apenas uma compulsão descontrolada, que me levou a escrever estas linhas sem que alguma epifania me movesse a escrever algo original.



(Escrito em 14/08/2008 e que tem definido tão bem a minha atual situação. Volta, Morgana, volta!)

sábado, 29 de março de 2014

Making me up

Costumavam brincar comigo, dizendo que aquilo não era apenas uma rotina, mas sim um ritual – e eu era a Suma Sacerdotisa, saudando um novo dia em seu templo sagrado. Todos os objetos cuidadosamente dispostos sobre a penteadeira, inclusive o espelho de aumento, amplificando muitas e muitas vezes os detalhes que o tempo esculpiu em meu rosto. Louvo cada pé-de-galinha, cada linha de expressão, por serem lembretes dos anos bem vividos e também dos problemas e dificuldades enfrentados. Sou Gaia, filha do Caos, e também aquela que gerou Cronos.

Com o adstringente, limpo todas as impurezas que se acumulam em cada poro, todos os comentários infelizes e acusações infundadas que são atiradas a todo momento contra mim. Nada disso me pertence mais e a sensação de limpeza renova-me. Sou uma tela em branco, virginal, pronta para me transformar em arte. Sou Perséfone, deusa da primavera, mas também aquela que comunga com o submundo.

Pouco a pouco, as pequenas manchas e máculas são disfarçadas e encobertas. Não o tempo todo e nunca por completo. Sinto uma estranha satisfação em contemplar as assim consideradas “falhas”. Abençoo as minhas imperfeições, abraço a minha mortalidade trágica à busca incessante pela juventude fugaz. Com traços firmes, os olhos são delineados em preto. Preparo-me como uma rainha amazona ante sua próxima batalha. Sou Atena, portadora da égide divina; sou Diana, a donzela caçadora; e também sou Morrigan, a rainha fantasma.

Embora trabalhe com leveza, a mão aplica uma sombra escura sobre as pálpebras. Quero infligir a ira divina no coração dos homens, perturbá-los com o meu olhar incoerente. Carrego os mistérios do oculto, das verdades imutáveis e não-ditas, dos desejos secretos, escondidos sob uma fina camada de pó de estrelas. Sou Nimue, a dama do lago; sou Hécate e sou Ísis, senhoras da magia.

Por fim os lábios, rubros rubros rubros. Enrubescidos como sangue, como fruta madura, como o desejo latente pulsando em cada célula irrequieta. O toque macio da pintura é como a carícia de um amante, deixando a sua marca visível aos olhos do mundo por breves e deliciosos momentos. Sua paixão estampada em mim é tão envolvente quanto os amores de Vênus e tão atemorizante quanto Kali, a destruidora. Porque evoco em mim o que há de encantador e terrível.

Armo-me para enfrentar o mundo diariamente, enfeito os cabelos presos com pedras brilhantes, colorindo o rosto com a minha pintura de guerra. Para me definir, para me agradar, me enamorar. Porque sou mulher e pertenço a mim, somente a mim. E isso me basta.


(Escrito em 26/03/2014 e faz parte da série "coisas estranhas que a senhoura dona jéssica pensa de manhã muito muito cedo".)

domingo, 16 de março de 2014

Garota sozinha procura

Não tinha como ignorar a moça que batia ponto todo dia no estabelecimento.

Ele era um péssimo fisionomista, sempre o fora, e provavelmente sempre o seria. O que podia ser um problema para alguém que exercia aquele tipo de profissão, que dependia da extrema atenção para cativar a clientela. Mas, como ele adorava insistir, havia outros "atributos" que o tornavam competente, e por ora isso lhe era o bastante.

No começo ela só aparecia lá alguns escassos minutos por dia, para uma rapidinha. Ele não lhe dava muita atenção: ele tinha lá a sua freguesia exigente para satisfazer, cada qual com um gosto próprio e peculiar nos sentidos mais únicos.

Ah, o nome?

Não, não, ele não sabia o nome dela. E como dizia o famoso bardo: "o que chamamos rosa com outro nome não teria igual perfume?" 

Ok, talvez ele estivesse ficando um pouco meloso e enamorado demais, mas era preciso ser uma pessoa passional para trabalhar naquele ramo, ou de outro modo não sobreviveria. Quer dizer, claro que sobreviveria, mas acabaria se sentindo mais um objeto, assim como tudo à sua volta.

E sim, ele admitia ser um bocado dramático.

Mas voltemos a "ela".

O que começou com visitas esporádicas ao estabelecimento - que ele não sabia determinar ao certo quando começaram - acabou se tornando uma rotina consistente e impossível de ser ignorada. Mais uma viciada, tsk! Ele queria dizer que era algo romântico e puro, mas do Romantismo a única coisa que havia ali era a apreciação (dizem!) por conteúdos que faziam esquecer a realidade. Ele era um rapaz passional, sim senhor, mas não gostava daquela patifaria de usar subterfúgios para se alienar. Preferia mais os dramas reais do que as irrealidades românticas.

Mas estava sendo duro demais com a pobre mocinha: vai saber que tipo de carências ela tinha, não é? Cada qual com seu cada qual, como o falecido avô sempre recitava.

Como já dito, ele era péssimo fisionomista. Não se lembrava se era morena ou ruiva, a cor dos olhos, nem nada fisicamente marcante. Era como se fosse uma entidade, sem rosto, apenas uma presença constante e silenciosa, sem laços que a prendessem a nada. Contudo, ele era bom em definir personalidades através de pequenas pistas. E também tinha um certo faro sherlockiano (amador e rústico, meu caro Watson!) que contribuía para o seu hobby favorito. Ele queria... ou melhor, ele precisava entender o que levava aquela moça a tal antro, todos os dias, se era romance ou aventura, se almejava um sentido filosófico ou místico, sempre buscando algo que provavelmente nem ela mesma sabia o que era.

Ela saía sempre com um novo amante e, por pouco tempo, isso lhe bastava. Entretanto, ainda não era o Escolhido, aquele que teria um lugar cativo em seu quarto e em sua vida. E em breve retornava ao estabelecimento, olhos brilhantes e respiração suspensa, talvez achando que naquele dia seria capaz de encontrar algo que a enamorasse por um período mais longo que alguns poucos dias. 

Depois de semanas de observação cuidadosa ele ainda não sabia como a conquistaria. Ela flertava com tudo o que seus olhos capturavam, tocava e sentia o aspecto físico de seus amados através de carícias dissimuladas, mas não ia além. Não tinha pressa. Era como um peregrino que vagueia durante anos em busca do seu Graal, sem se importar com a demora - a jornada em si era o que importava.

Um dia teria a sua estória, o seu romance ideal. Um dia teria algo que finalmente marcaria e acompanharia a sua vida para sempre. 

Porque ela simplesmente não se importava por amar o ficcional.


(escrito inicialmente em 18/08/2011 e reescrito um bocado de vezes. e que só está sendo publicado por causa da betagem pontual da Dani, que deu uma melhorada significativa no texto.)

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Mais-que-(im)perfeito

"It's better burn out than to fade away..." escreveu Ela na página dele em uma rede social. Como se fosse um desafio, uma provocação bem direcionada aos constantes comentários oblíquos que ele costumava lhe deixar.

Toda Ela era um imperativo. Não daqueles que são negativos, implicando uma recusa que ele sabia ser incapaz de dar. Era sempre amo, odeio, venero, fujo, necessito, procuro, desejo mais e mais e mais... Com Ela era sempre tudo muito espontâneo, terrivelmente direto e inexpugnável.

E ele?

Pobre, pobre infeliz, apenas um subjetivo envolto em dúvidas, anseios, sonhos e suas (im)possíveis causas para um amor natimorto.

Por Deus, lá estava ele outra vez falando de Amor, como se soubesse o que quer que fosse do assunto. Conhecia o sentimento exacerbado somente através de filmes, leituras infinitas e das canções angustiadas que embalaram a sua adolescência perdida.

Ensaiou fazer-lhe uma declaração um sem número de vezes. Tantos eram os cenários e situações... 

As fantasias eram as mais variadas: ora Ela o aceitava e retribuía o seu amor, ora lhe respondia com um sorriso indulgente e uma oferta de amizade. 

Mais de uma vez esteve prestes a lhe enviar um dos muitos textos que transpirava em noites insones enquanto pensava nela. Mais de uma vez quase ligou no meio do dia, no momento mais aleatório possível, apenas para dizer que sentia sua falta. Mais de uma vez tentou ser menos ele.

Ele era patético, era essa a verdade.

É que não sabia amar sem que fosse platônico. 

A possibilidade de se expor o aterrorizava sim, era verdade. Mas o que o consternava mais ainda eram as infinitas possibilidades - justo ele, que era dado a fantasias tresloucadas.

Se Ela o aceitasse, era certo que não duraria. Ele era calado demais, ensimesmado demais, estranho demais. Não saberia como compartilhar a sua alma solitária, deixar que ela o enxergasse. Mesmo quando Ela dizia gostar do seu ar de poeta romântico, ele sentia que nunca seria capaz de exprimir um centésimo de tudo aquilo que sentia por Ela, que eventualmente se cansaria dele.

E a possibilidade da rejeição, meus amigos... ah, isso era muito mais do que ele era capaz de suportar.

Por isso permaneceria assim, alimentando-se das migalhas de atenção que Ela lhe dava. Um dia, talvez, ele lhe entregaria o seu coração, para ser usado e manipulado como Ela bem entendesse. Um dia, quem sabe, deixaria de ser um covarde. 

Mas não tão em breve. Não hoje, não agora.

Ainda não estava pronto para abrir mão do seu amor egoísta.


(Jéssica Oliveira - 27/01/2014 - passível de ser reescrito ad infinitum)

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Interregno

E esse calor!

Tudo muito colorido demais. Tudo muito barulhento demais. Tudo muito intenso demais.

Tudo muito tudo demais.

Sinto falta do outono, do cinza, do esmorecer das luzes, das longas noites de espera.

Sinto falta de sentir tua falta.

Não dá para escrever angústias fingidas assim.

domingo, 29 de dezembro de 2013

Mais do mesmo

Ri da sua expressão absurda quando me disse odiar clichês, tão certa de que isso era algo notável sobre a sua personalidade.

Amiga minha, eu lhe asseguro, você é o maior deles.

Do batom vermelho (manchando o cigarro barato que segura de modo blasé entre dedos nervosos) até o vestido florido comprado em um brechó na Augusta... tudo em você parece cuidadosamente escolhido de modo a mostrar que não é como os outros. Acreditando que as leituras intermináveis e a ânsia contínua por um sentido transformá-la-iam em um ser iluminado que estaria de posse de algo único e raro. 

Especial.

Adorada minha, você não passa de um acúmulo de células e átomos funcionando em uma frágil estrutura de sangue e carne. Um pequeno milagre ambulante, ignorante de si mesma e dos outros ao seu redor.

Carregamos o universo em nossas entranhas, e somos tão mais que o nosso gosto por músicas, livros e filmes. Você nunca conseguiu compreender isso. Achando-se tão superior por não ser popular, por gostar de filmes antigos e apegando-se a memórias alquebradas de um tempo que não viveu.

Noites insones regadas a drogas psicotrópicas não lhe trarão respostas. Escondendo-se sob a sua melancolia como se fosse maquiagem.

Amada minha, não faça isso com você. 

Não se angustie assim.

Coloque os pés na terra. Sinta o sol queimar a sua pele translúcida.

Viva, minha querida. Apenas viva

E se permita viver.


(22/12/2013)

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

faxina emocional

enfim resolvi tirar as teias de aranha daqui. daqui de dentro.

um "regurgitamento" emocional, por assim dizer. 

termo bonito, não é, my dear?

cansaço emocional deve ser curado de que maneira? será que dormir e apagar e esquecer é o suficiente? mergulhar na inconsciência e no escuro auto-impostos? 

cansaço do peso que parece me afundar em pensamentos inúteis. desses que eu não consigo afastar. isolamento na própria mente, no mundinho imaginário e confortável. 

um refúgio que me protege da insanidade, que me protege da dor.

do tédio eterno.

infindável.

será que dá pra aproveitar algo daí? será que do vazio pode brotar algo bonito? 

e do casulo nascer uma borboleta, que renasce e renasce...

será mesmo, dearest?

bela e leve como uma borboleta?

domingo, 15 de dezembro de 2013

Uma casa em que vivi

Costuma-se dizer que Lar é o lugar onde o coração vive. Mas há quem diga que é a própria Casa que possui vida.

O alvorecer, quando traz luz e calor para o recomeço do mundo, preenche e renova a vida que pulsa em cada canto da Casa.

No quarto de dormir, apenas o ressonar suave das cortinas modestas, que se movem passivamente quando tocadas pela brisa matinal, quebra o silêncio. O espelho na porta do guarda-roupa antigo reflete todos os pequenos detalhes que foram cuidadosamente decorados ao longo dos anos: pequenos bibelôs – lembranças de viagens e encontros e agrados, a imagem da Virgem esculpida em barro e que sempre mantém vigilância, a cama de Casal – sempre protetora e reconfortante, o receptáculo dos sonhos de uma vida – um bilhete qualquer sobre a mesinha de cabeceira, guardando uma mensagem que ficará preservada até o fim dos tempos.

Assim como seus habitantes, a Casa também desperta de seu sono reparador à mesma hora. Gradativamente, cada cômodo parece espreguiçar-se e ganhar ânimo novo e acordar para a Vida.

A luz do Sol invade a sala de estar através da janela que vive emperrada; e é como se a garotinha do quadro protestasse por ter seus olhos desenhados perturbados pelas réstias de luz. Os livros antigos parecem brigar por espaço na estante abarrotada de coisas, como se o contraste entre novo e velho fosse uma batalha diária. E existem também os resquícios das pequenas travessuras infantis, que estão presentes nas marcas da parede, meros lembretes de que a criança ainda vive naquela Casa.

O resto da Casa abandona a sonolência aconchegante quando o aroma da primeira refeição do dia insinua-se por cada brecha. O som dos utensílios domésticos e do movimento na cozinha misturam-se às vozes murmuradas, quando a Casa e a Vida renovam-se para um novo dia.


(Jéssica Oliveira – 18/09/2007)

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Ângelus


Poder-se-ia dizer que acordara apenas nostálgica ou que uma muda e passiva tristeza moviam os seus passos silenciosos. Contudo, no semblante aparentemente tranqüilo havia uma angústia indizível. Não havia um motivo concreto para tal, porque há dias em que se tem saudade de algo que não sabemos o que é, e esta dor, esta agonia causa-nos tanta exasperação que é quase reconfortante entregar-nos à melancolia.

Caminhou pelas ruas da grande metrópole imersa em pensamentos. Sabe, é que a mente nunca pára. Sempre trabalhando. Sempre confusa. E um pensamento chamava outro, corrompia o anterior, tornando-se algo mais que assombroso.

E naquela tarde em que caminhou pelas ruas movimentadas da grande cidade, as nuvens nebulosas e o tempo cinzento davam a impressão de que tudo fora descolorido e que tudo agitava-se silenciosamente em espera e que a angústia sentida era compartilhada como se tudo estivesse a espera de um sinal.

Quase soltou um riso curto e seco, riso de ironia e leve despeito quando achou que a inquietação sentida reverberava e ecoava com o badalar dos sinos da catedral. Era um som que tinha algo de assombroso e solene. Imponente. Algo que tocava fundo, como se uma mão de toque imperioso lhe violasse o interior e expusesse o que não havia para ser revelado.

Perdoem leitores – caso haja algum – se a minha tendência é ser confusa. É que não sei falar de algo que é sentido por outrem e não cair na prolixidade da complicação. Ser simples é sempre mais difícil e falar de algo sentido e que não se sabe o que é, exige habilidades que não possuo.

Todavia, o badalar dos sinos era apenas a anuncio do Ângelus.

“Por quem os sinos dobram?”

Por quem?

A célebre frase sempre fora uma incógnita para ela, que não entendia, mas apenas sentia aquele som grave percorrer o seu corpo pulsando em suas moléculas inquietas.

“Eles dobram por ti”.

Eles dobram por todos. Eles dobram para todos.

E era como se aquele som pungente, quase doloroso, repetisse em eco: por ti, por ti, por ti...

- Angelus Domini nuntiavit Mariae.
- Et concepit de Spiritu Sancto.

Persignou-se, sem nem mesmo entender a razão. Passara todos aqueles últimos meses perguntando-se se havia alguma força superior, um Deus que em seu poder infinito olhasse e velasse por eles, pobres homens que estavam jogados nas trevas do sofrimento e da morte. Talvez aquele simples gesto tivesse tornado-se uma rotina, um hábito que lhe fora ensinado desde que fora capaz de pronunciar as primeiras palavras.

Por breves instantes cogitou a possibilidade de entrar na catedral. Acabou recuando alguns passos, os olhos perscrutando de maneira inquisitiva as paredes de pedras frias e cinzentas.

Quando menina tivera uma relação intima de amor e entrega com o Divino, mas a imagem dos santos dava-lhe a sensação de estar sendo constantemente observada. Era inquietante, mesmo sabendo que aqueles olhos pintados em barro seco nada viam.

Parte daquele desconforto estava no fato de que sabia que nunca estava sozinha e, ao passo em que este pensamento a atemorizava, ele também a confortava – como se tivesse um melhor amigo que pudesse levar a todo canto – e, de fato, o tinha.

E desta vez realmente sorriu. Sorriso discreto e matreiro, daqueles que se dá quando alguém muito querido faz uma surpresa – dessas que te fazem bem - e, mesmo sem querer admitir, sente que era aquilo de que se precisava.


A angústia sentida esvaiu-se com a mesma rapidez com que surgira, porque sabia que nunca estaria só e o Ângelus anunciava aquela verdade simples com o seu ressoar: por ti, por ti, por ti...


(Crônica escrita em Frei Paulo, SE, em 08/07/2007)

(da série "preciso voltar a escrever porque as vozes não me deixam em paz!)

domingo, 6 de outubro de 2013

Porque eu me incomodo

Eu leio porque não existe uma razão maior para isso. 
Leio porque é vital para mim, porque faz com que minha miopia seja atenuada, suavizada. 
Leio por medo da ignorância, de permanecer no escuro que é a ordinariedade do ser humano.
Contudo, ser não-ordinária não me faz feliz.
Porque eu me incomodo.

Eu me incomodo com o mundo, com as conversas vazias, com os pensamentos aleatórios, com a mesquinhez da falta de interesse.
Eu ouço, mas não escuto os outros. Vejo, mas não enxergo algo que me interessa verdadeiramente.
Eu apenas procuro ler, porque nas entrelinhas eu encontro a subjetividade daquilo que tenho ansiado e continuo sem entender.

Eu dou graças aos céus toda vez em que paro para pensar no quanto sou estúpida, burra mesmo. 
Porque isso me incomoda. Enerva-me, me faz descontente.
A infelicidade nem sempre é ruim. 
Assim como o seu oposto, é apenas um estado transitório. Tudo acaba passando: momentos que se sucedem infinitamente.

Eu me frustro porque na maioria das vezes não compreendo as coisas que leio, que vejo, que ouço, que sinto.
Dizem que frustrar-se é bom, porque o desamparo que a ignorância nos traz impulsiona-nos em busca de um sentido.
Mas talvez o tal "sentido" não exista - as vozes sussurram, cruéis, quando acabo por quedar-me irritada diante deste tipo de pensamento.
Porque isso não passa, nunca passa.
E isso me incomoda.


(21 de agosto de 2008)

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

E você se sente simplesmente cansado e exaurido. Exausto mesmo. E nada é capaz de “animar os ânimos” ou te dar uma boa perspectiva das coisas.

E você se arrasta pelos lugares, indiferente, tentando apenas preencher aquele vazio enorme. E aquilo te sufoca e você se sente sozinho. E você se cansa e se cansa e se cansa... tudo tão cansativo e nauseante. 

E o nó na garganta e as mãos trêmulas e o coração pesando tão horrivelmente. E você tenta e tenta e tenta achar uma solução, mas o desespero cresce exponencialmente. E as lágrimas vêm aos borbotões, vergonhosas. Sujas. Angustiadas. E elas não cessam e o vazio permanece e as horas voam. 

O tempo corre cruel, zombeteiro. E você tenta mudar, tenta crescer. Apenas tenta. E chora e sofre e se desespera. E a comida não tem gosto, a bebida já não causa prazer, o sono não tem sonhos. Apenas o vazio. E você olha e não enxerga, pensa e não sente, chora e não vive. Você sobrevive e se agarra à cada ínfima esperança de mudar. Mas você não muda. Você apenas resiste debilmente. E o corpo definha, a alma rasteja e o coração sangra. Tão débil e pobre e fraco. E você quer apenas se confortar com as sombras e o silêncio e a auto-piedade. E você... apenas suspira, pesaroso, vazio. As agonias e as dores e o medo... nada parece fazer sentido. 

Você se esgueira pelos cantos e quer apenas que tudo acabe. E a garganta aperta e as pálpebras ardem e os ombros se sacodem. As lágrimas não melhoram nada. Você continua se sentindo pequeno e inútil. E tão, tão sozinho... e não há nada, nada que te ajude a melhorar. São apenas ilusões.

(da série "coisa aleatórias escritas há anos e que não lembrava de ter feito")